clarice

Vai coração, bate! Vai Clarice, me ressuscita. Me digam de que hei de viver se nem o que poderia restar for possível. Vai! Me mostra em que estágio do meu querer hei de repousar quando nem mais o teu olhar me restar. Vai! Me prova o quão pode me machucar. Vai coração, vai! Me mostra o quanto é podre, passado, triste, desfigurado. Vai, coração vai! Me prova que nenhum esforço é garantia, que quando menos se espera se leva uma rasteira de onde nem se imagina, ou então, de onde se imaginava protegida. Vai Clarice, vai! Me ressuscita para que não me sinta simplesmente perdida em meu ser, que pelo menos depois de morta eu serei você. Vai, vai! Deixa acontecer, até morrer de querer e não ser. Vai Clarice, vai! Tu nunca falou do teu homem, mas sei que não vivia mau acompanhada. Vai coração, vai! Explode de tanto renegar, se deixa angustiar pelo próximo, pelo distante, pelo que nunca se revelou ou se revelará. Vai! Dorme, deixa que a paixão durma na cama ao lado, vai! Se deixe esvair, se deixe ir; não lute demasiado pelo que imaginava que deveria ser espontâneo. Vai, dorme, se entorpeça, emudeça, mas não esqueça se visitar-me em meus sonhos. Vai Clarice, vem! Me acolha, onde não há mais quase nada, se não o conforto da palavra. Vem, me fortaleça, adormeça os nervos esvaziados e desesperados. Vem Clarice, vamos! Soltar a bici na descida, permitir que qualquer recaída não seja defeito da paixão. Vem, vem, vem, vamos juntas! Não quero ir sozinha rumo esse destino para o qual não tenho freios para deixar de ir.

Posted in General | Comments Off on clarice

hospital de urgências

Vontade de ter o que dizer só pra poder sobreviver, um impulso qualquer de idéia e vontade que mantenha essa centelha acesa, de alguma maneira. Não quero esvanecer e o vazio da mente e do coração beira o abismo em que isso parece próximo de acontecer. É difícil cruzar os dias e noites em que não há luz, difícil cruzar a vida sem tropeçar no nada. Difícil sonhar quando o corpo esta preso, neste ponto nos encontramos. Os olhos que não percorrem caminhos não podem se reinventar de um hora pra outra, a mente não trabalha sem o alimento das coisas e pessoas, a mente não se auto-reproduz do nada tampouco produz a nós mesmos/as se não à oxigenamos. Um percurso quase viciado como as horas entre casa e estudo, quando tento escapulir sou lançada ainda com mais força sobre o incômodo de estar viva, olho a minha volta e não é só comigo, olho a minha volta e vejo olhos famintos, daria os meus pra saciar os de alguém, mas estão podres como uva passada. Quero uma fonte que combata meu desespero, mas não encontro, não encontro. A prisão já se estabeleceu e já não é tão oculto assim, é possível ver a vontade gritar em desespero, sem poder realizar-se. É constrangedor constatar o algoz dentro de nós, é constrangedor conviver com o bandido e o polícia dentro de si, um que quer, o outro empata. Os dias passam e as fronteiras e muros parecem determinados a não permitir que nada de novo nos surpreenda, quando estamos na rua, as pessoas parecem embaladas em plástico. Apenas a ansiedade de manter-se inquieta parece ainda chamar a atenção de alguém, mas o ar se rarefaz de pronto e as partículas se distanciam sem que possam se tocar. No meio desse devaneio e desse desconforto ponderações estúpidas ainda se fazem presente, a possibilidade de pirar sem se acabar parece cada vez mais distante. Quero a loucura como quero a vida, mas chega um momento em que até o devaneio parece perder a inspiração. A cabeça pesa uma tonelada e de tanto lixo já não dá conta de conter mais nada, no coração, uma barricada; o que há dentro nele não é a riqueza dos países coisas, e talvez por isso ninguém esteja disposto a atravessar este Saara. Chegará um momento que de tão repetidas as palavras, se esgotarão as combinações possíveis e não será impossível inventar mais nada, até elas talvez se cansem e me deixem aqui, com o tempo transbordando pelo esgoto, desaguando este sufoco, sem chegar, sem se dar. Tudo o que me resta são os cacos ainda juntos neste saco, mas nem a pele já suporta o peso desse desespero, essa calma que num chega, essa paciência que observa o tempo, sem ao menos cantá-lo. O tempo exibe sua soberba, seus cachos, seu charme e não me olha, não me vê aqui desejosa do seu abraço; nem sequer me percebe, não pergunta meu nome, não me distraí com sua leveza nem me revela sua beleza. Sou mais forte que ele e por isso me irrito com tamanho desprezo, sei que se ele me toca não resiste ao impulso que há em mim, se renderia em questões de segundo a sedução da determinação. Flores, ruas, espinhos, sol, folhas, troncos, sons, cores, muros, papel, tecido, água… Me notem aqui, me digam onde ir, não vou subsistir sem me iludir, não vou acordar se não sonhar, não vou lutar sem sangrar nem amar sem cantar. Pedra no caminho meu e de milhares de meninos/as, deixe um certo desleixo passar por você, machuque meu dedo do pé pra assegurar-me de que sigo viva, me desvie o caminho, me leve ao ninho. Sem verdade, sem vontade nem passarinho, me dê armamento pra seguir sozinha, em meio ao concreto, ao incerto, ao medo e ao risco, me tire daqui, do meu lugar comum, grite pelo meu número de chamada, na sala de espera do hospital de urgências.

Posted in tateando | Comments Off on hospital de urgências

restos

Então, sobrou. Sabe aquilo que “sobra” do que a gente pretendia? Que fica ali na nossa casa, na nossa cama, no sonho, um “pelinho” no prato do café da manhã? Então. Cê sobrou no tempo que lhe correspondia na minha vida, ficou os resquícios. Acabou e é como se tivesse de voltar.

O que fazer disso? É até fácil, sabe? Dizem que é fácil, que tudo o tempo cura. É só seguir que as coisas se ajeitam… Mas e o que ficar pra trás? Isso que deixar pra trás, como é que fica?

Certa vez assisti um filme em que um homem arrependido de toda sua vida tentava recomeçá-la, e quando se deparava com o outro/a, aquele/a, essencial a nós mesmos/as, também já haviam deixado e sufocado tudo aquilo que fica sem se terminar; ele não pôde, não teve como voltar. Voltou e não se reconheceu, nos outros que já não eram os mesmos. Dele mesmo que já não era o outro, que deixará pra trás.

Aí amigo, tú já era. Uma vez na estação esperando, pega o próximo bonde e vai. O descompasso do tempo não nos permite esperar. Mas se é que cê chega, daqui a pouco, espero. Daqui a pouco cê tá aqui e nem imagino que tanto vou sorrir, depois de mais tempo ainda talvez me torne séria e depois chore, eu fujo, caio fora, num espero nada.

Saio fino, ligeira, escapo de qualquer apreensão. Me viro porque sou uma mulher, criada por outra mulher que me quis bem, então não há mau que possa me deter. Aí mano, tú pode me fazer feliz mas só um pouquinho, só na medida que for apoio pros sonhos que já tenho, me comprometo com o teus sonhos e da mistura dos dois vamos se satisfazendo em uma vontade redobrada de ser, porque um/a só, nunca é suficiente mesmo.

Posted in poeira | Comments Off on restos

despedida(s)

Além do vazio quase absoluto dos que se mantêm vivos diante da morte – além da reflexão sobre “o que é a vida”: afinal, lutaremos tanto mesmo tendo como único inevitável a morte – há algo de bonito em ver a comunhão de seus bem quistos diante um funeral: A constatação de que nada valem os sentimentos pequenos, aqueles que por vezes se espalham como poeira em corações quase abandonados.

– Acabo de pensar que a solução da equação tá aqui: Temos a morte por inevitável, mas apenas a nossa. A dos outros/as são incerta durante nossa existência. Taí a chave do nosso egoísmo: nos conformamos com essa condição, desde que não a presenciamos… (estaria aí nosso instinto de morte?)

Presenciei nesta tarde a sutileza em meus familiares, a fragilidade, a saudade de tudo o que foi e que continuará a ser, sempre incompleto. A história de vida preenche-se de sentido ao encontrar-se no presente: o que foi embeleza-se no encontro daqueles que guardam consigo o par das peças, como num jogo de memória.

Ao cair da tarde, as flores, as nuvens, a cidade reluzente ao redor e o caminho sombrio até a cova, onde perde-se a matéria dos que queremos bem e que mesmo depois de todo o preparo anterior, desponta enquanto ápice dramático e dolorido: não só já não o escutaremos, mas nosso olhar já não poderá descansar sobre ele.

De repente sou acometida pelo sentimento perplexo da soma dos erros: não só daqueles irreparáveis, mas também daqueles para os quais ainda dispomos de tempo para remediá-los.

– Enquanto escrevo me dou conta (uma vez mais): O momento parecia influenciar de forma difusa meu sentir, por estar só, ou manter certa distância, que me permite ainda que o não convívio demasiado ou desnecessário crie fronteiras conflituosas ou barreiras (aparentemente) intransponíveis.

Percebo, quase num lampejo paradoxal, a beleza do efêmero. Não somos absolutos e jamais o seremos. Os rituais de passagem estão aí para lembrarmos disso: São como o repasse do bastão, que de mão-em-mão, levam nossa geração. Renovam-se assim como as plantas, a cada reiniciar de suas estações.

A não compreensão ou experimentação prolongada desta aprendizagem, talvez ajude a perceber os repetidos erros que cometemos, enquanto humanidade: sua fundamentação no passado, por um lado nos dá a dimensão do valor, respeito e dignidade dos antepassados, bem como pode nos levar a justificar e perpetuar o injustificável. No entanto, se nos prendemos à ele, deixamos de lembrar que aqui estamos também pelos que virão e não deve haver medo nem certezas e verdades, apenas o encanto da continuidade: que só é possível a partir do que perece.

Posted in sol | Comments Off on despedida(s)

disritmia

O medo da solidão, a solidão de fato.
O corpo dilacerado pelo desejo de outro, outra coisa que me mova
outro sentimento, que possa se traduzir sem nenhum intermédio tecnológico.

“O amor não serve para nos faazer felizes,
mas para nos sentirmos vivos”

Círculo vicioso que nos prende à um centro concêntrico,
quero libertar-me desta atração
buscar outro lugar no mundo para mim.

“quero ter medo e estar segura”
mas não estamos, e o impulso dicepado
vai se tornando tempo passado, num agora mutilado.

Poder da amizade com aqueles que nunca falham
quero ser abraçada pela convicção de uma semente em se tornar fruto.

Vida em extremo desequilíbrio,
na corda bamba me agarro
no eixão me desgarro, de qualquer humanidade.

“Gosto de alguém no início”
e depois sigo sendo como todos os outros que perguntam “é você?”
e nunca sei a resposta, quando sinto afeto não sei se é você
do lado de fora ou dentro de mim.

Quero embriagar os sentidos até me sentir tranquila e adormecer
quero ser um ninguém alegre que seja todos/as ao mesmo tempo.

Abraçar o redemoinho do tempo e girar com ele,
amar alguém ou alguma coisa que não seja com o pior que há em mim,
ou odiar, com o melhor que há.

Um coração destruído pela felicidade
e a repetição do ato que a persegue
sem perceber que um contento jamais o será duas vezes,
o que me satifez ontem, será talvez,
sempre o que me fará chorar hoje.

Caminho, caminho e não encontro, e ainda sim algo mais fica pelo caminho,
o vento no rosto é o melhor que sei sentir,
mas sempre que haja alguém do lado para sentir comigo
e para fazer ventar os outros lados da cara,
sem isso é só mormaço
sem isso é só reorganização do que há por dentro
sem nada de fato mudar.

Aí amanhã… aí. Haverá uma pedra para me desviar o caminho?
o agora eu já sei, e a reprodução dele é o reto da morte,
“progredimos e regredimos, para frente e para trás”
disritmia, dum lado e doutro
o que se repete é apenas, a falta de sentido.

Posted in poeira | Tagged | Comments Off on disritmia

agostos

Na diluição dos dias, das horas, das lágrimas alheias e do álcool (que à tudo cura), vejo a vida e as certezas se esvaírem. Tudo se dissolve num misto de êxtase e incerteza, numa potência contida de amor, numa vontade que se não realiza, perpetua enquanto poesia.

Passa, passa-tempo. Mas não passe muito, para que ainda haja oportunidade de alcançá-lo, que ainda possa lhe fazer companhia nas horas vadias que me rondam, sempre em forma de lugares que não estive.

Talvez quanto mais longe eu fôr, mais me escape os sentidos, inclusive o de estar sozinha. Ainda que no estranho eu encontre a saudade do mesmo. Esse mesmo vago, lento, quase repetição; redescobre sua força nos dias que correm certeiros, de quem sabe onde quer chegar mas não usufruí dos caminhos.

É nesses dias que a imagem de um domingo retomam a lembrança, independente do dia da semana, com todo seu encanto. É nesse mesmo momento que os estágios da vida deixam de contar, e não há idade que possa contar nada sobre mim.

A falta ou excesso dos fatos não mais medem a quantidade ou qualidade vivida, passam a ser, quando não são, falta de imaginação. Bem como se tornam exceção quando a vida transpõe, já não comportando a sinergia que cria as formas concretas deste mundo.

Azar dos fatos: é a conclusão. Ou pena, que não possam se revestir de tantos adornos como os da intuição. Ainda que extravasem inconstância contidas, bem como constâncias excedidas: podem ainda se imbricarem num contexto torpe, onde quase não há nenhuma razão, mas que um pouco de emoção ainda permite agradecer uma manhã serena – ainda que ligeiramente embriagada -, onde os sentidos e os sonhos se refazem no devir de um novo dia.

Posted in tateando | Comments Off on agostos