ayahuasca

Quase nem tenho vontade de dizer, apenas de gozar um silêncio a mim impossível. Os medos são muitos e irreconheciveis, e isso não atribui nada de especialmente incompreensível a vida, apenas ela mesma me espanta de forma devastadora, não sinto prazer e isso machuca, ainda mais doloroso pensar quantas pessoas tem seus corpos agredidos, da ferida a dignidade. Sou quase uma coisa artificial e isso dá enjôos, o que vem sendo feito não será perdoado, não existe perdão possível para aniquilação generalizada das diferenças. Consigo prever a explosão, e isso recorrentemente me dá a sensação de já ter vivenciado e/ou ouvido falar: Num estopim de lucidez, a consciência se levanta e armas a miram fazendo-a voltar ao chão de onde veio. Sinto quase parindo a terra revirar-se do avesso e choramingar anos de humilhação e bestialização, é muita dor para que de pé não jogue ao vento concretos e convenções, derradeira final – o tal gozo do zangão. Terra vagina, gestando anos de ignorância não justificável, a cria não é menos gigante e avassaladora. Penso nas mãos, sinto vontade de bater palma, e quanto sentido ela agora me faz! O mundo é aquilo feito pelas nossas mãos, cuide bem das suas, são valiosas, por vezes, muito mais que a boca. E compreendo, ou tento, as diferentes percepções; sim Hugo, não há hierarquia entre elas, mas existe aí um problema de “racionalidade” se é que isso existe. É que é realmente difícil se convencer de que não existem parâmetros e que tudo pode ser qualquer coisa e outra ou o oposto disso e que a suposta realidade não passa de uma aberração desnecessária… Contaminar o abastecimento de água da cidade com folha e raiz pro dia nascer feliz. Acabar com a violência e as armas, para que nem nos sonos mais ingênuos alguém apareça para te repreender. O que é o outro nesta sociedade se não uma obsessão, consciência mutilada, somos incapazes de vivenciar um único organismo sem separações, classificações, mediações e incompreensões, não é possível que as coisas tais como são sejam infinitamente piores que a morte. Desconfiança do tempo que anuncia nas nuvens de poeira muita vida contida, ela é por demais selvagem para se comportar bem quando solta, e sei que não há desfecho desta vez para essa sucessão de pensamentos, não há moral nem caminho, seguir exigirá cada vez mais um esforço dedicado de não esvanecer. Preciso de bastante silêncio para elaborar o que quer que seja, mas as pessoas não percebem isso e consideram muitas vezes a minha necessidade um desrespeito e me cobram por isso, e acabo lembrando de muitas pessoas que algum dia o silêncio delas tenha me incomodado. Essa manhã ousei refletir a dureza do meu corpo e da minha alma destes últimos tempos e observei que esta dor quer eu queira ou não esta marcado por esta trajetória feita por pequenas e despercebidas tragédias, e que não posso me julgar por nada, calem os bedéis do pensamento. As feridas expostas ou não do mundo devem ser levadas em consideração imediatamente, para que a vida não se torne compulsória e os sonhos não sejam despregados da terra. Barulho, sons, me rondam de forma sempre ameaçadora, quero sempre sempre uma canção que me alivie a alma, para que as milhões de vozes mundo afora não venham me perturbar com seus cochichos. Não me estranhem, quando me sentir à vontade voltarei a ter com o mundo essa relação casual, mas preciso antes destruir o que há de distração em mim, o que há de sujeira que separam os órgãos, preciso abraçar esse redemoinho que me envolve a vida e sua concretização mais artística: reiventar o que nos foi dado com paciência, amor e sinceridade. Me pergunto se preciso mesmo de construir ao meu próprio eu ou deixá-lo disperso de forma que tudo seja encarado despretenciosamente ao acaso, ou se realizar-se causa num mesmo instante ambos efeitos, e aí vale encarar a questão do respeito, por que vezes e outra me sinto invadida mesmo nas relações mais harmoniosas e aí não sei o que demanda mudanças. Não quero mais viver estes desbravamentos solitários da mente, preciso com as mãos compartilha-los com a terra a daí diminuir o passo. Prefiro o silêncio aos clichês, ainda que eles sejam necessários para levar à algo de novo, e isso me intriga.

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