Assim, aos poucos, aproxima-se de mim e senta em silêncio ao meu lado a percepção de todas as ilusões.
Olha para mim e não diz nada. Serve um café e me observa com aquela feição de lamento meus olhos enxerem d’agua. Ela sempre esteve ali, mas eu evitava fitá-la.
Choro e ela não me abraça, não é conforto que sua revelação vem me trazer. É um pouco triste, é duro e ela sabe disso. Me deixa à vontade para absorver, compreender e por fim, quem sabe, viver.
Viver a compreensão de que são muitas as armadilhas e os disfarces inventados para ocultar o óbvio à respeito de nossa condição.
Talvez não esteja imersa, e isso ainda me permite enxergá-la ainda que não possa gritar – a quem precisa tanto sabê-la. Aliás, isso por si só não significa poder ou querer sair dela. O que resta mais adiante não corresponde ao alívio de nossas angústias e obsessões, mas a inibição delas simplesmente.
O mais doloroso seja talvez, encontrar no mundo terreno as condições para se viver livre delas.
Observo muita gente presa aos meios que lhe garantam a existência, gente que luta, mas que na sua profunda desnutrição da alma, corre de um lado para o outro tentando tapar os buracos que esse vazio lhes causou. E que sempre cresce, como se a alma entrasse em erosão.
Não percebem que, por mais que corram carregados de tudo o que encontram pela frente para tentar tapar-lhes a ferida, tiram de algum outro canto que também lhes fará falta, num processo contínuo de exploração e remoção de si mesmo.
Talvez não seja mais “obras”, mesmo que de reversão dos processos que saquearam e depois implodiram nossa alma, de que precisamos, mas de simplesmente cessar a corrida atrás do próprio rabo e deixar que o que tá lá dentro floresça.
É essa vegetação nativa da alma que poderá recriar um ambiente propício para que voltemos a respirar e então, ser! Ser o que quisermos, com tanto prazer que jamais faltará recursos para a existência do corpo e da alma.
É na simplicidade do fruto, da amizade e da criatividade onde reside todo o segredo e o mistério enterrado na terra, é aí que esta o tesouro.
A intensificação da doença criou os doutores, complexificou a vida de um modo que nos fez acreditar não ser mais possível desfrutá-la com liberdade e autonomia. Quanto mais nos desviamos do jeito sabido de nos prover, mais complicamos e nos fazemos refém de uma estrutura e organização da vida que não dominamos: nos sujeitamos. Pela promessa de… O que mesmo?
Podemos achar que muito do que foi inventado e vendido como essencial, seja mesmo essencial, até não tê-las. Quando não as tiver se dará conta que não fazem a mínima falta. E isso é um segredo que, acredite, ninguém vai lhe contar por aí. Mas assim como há o ciclo da terra, as coisas e as necessidades são como um círculo. Desprenda-se de uma e verás como não fazem falta.
Adorei o texto, Tati!