too be

Não sei ser nem estar. Talvez saiba: ir. Foram muitos os momentos que nem fui nem estive. Não era eu, eu não tava lá, e algo em mim transbordava, como o leito de um rio que não é mar, mas ainda chega lá. Diluída, permeei  tudo aquilo que estava à margem e ao fundo, e eu seguia. Foi então que um certo dia, sem que me desse conta, represaram meu destino. Ali fiquei por um certo tempo, seca eu chorava, e era forçada a voltar sempre àquele mesmo lugar, cheio de si mesmo. Como se de repente tivesse de ser ou estar aquilo que eu jamais poderia conter. Era hora de romper.

Ainda não se sabe se com a força da pressão, voltou ao seu curso natural ou se perdeu em tantas direções.

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bilhete

O abraço, o cuidado e a companhia foram ingredientes especiais nesses dias de céu estrelado e muita prosa boa em volta do fogão. Nesse canto do sertão a caatinga emite cores, sons e odores de muita liberdade, com carinho e dedicação. Aqui cada planta, cada alimento preparado, o descanso no chão da sala, a pedalada, o banho de açude e tudo o mais parece pleno de significado e satisfação, das boas companhias que estão sempre as voltas com as mãos dispostas ao afago e ao cuidado ao que é são: pra terra e o coração. Realmente inspirador cada momento, cada conhecimento, cada pessoa que chega para povoar nossas convicções. Sinceramente agradecida pela semente e a serenidade compartilhada nestes dias.

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três bolinhas

A alegria é como jogar três bolinhas:

Tem sempre uma na mão

outra no ar

e uma que cai.

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Intestino

Gosto das coisas pelo avesso. Já me disseram até que pode uma certa dificuldade em amar e… ser amada. Na ocasião até concordei, mas no meu jeito avesso de ser, prefiro pensar por hora que seja pura teimosia ou travessura. É que para as coisas que não levo muito jeito, acabo zombando de mim mesma em silêncio, metendo os pés pelas mãos, me pondo nas piores situações (que é pra ver como me viro). Só de ser possível certas coisas, perdem parte da graça. Para o que é possível o acordo, se cumprido, não tarda que seja fardo. Nesse sentido, acabo procurando – sem perceber – o conflito. Gosto das entrelinhas explicitas ou não que geram desconforto. Se somos EGOístas, é aí que me exalto: se sou pura tensão dramática subjetiva e intimista, como posso querer a linearidade do que é tranquilo? Só posso me colocar em oposição como forma de enxergar no outro meu drama cotidiano e corriqueiro: provoco o mau-estar como uma maneira de me encontrar. É quando já não me sinto sozinha, mas isso é difícil de explicar. Alguns irão dizer que não me reconhecem nessas palavras, mas não é difícil entender porque. Sei que de tanto me colocar nesse movimento quase peristáltico, já não há como cessar, seria a própria morte. Assim que me rendo as turbulências do intestino grosso e delgado, que me leva à dores de barriga que é impossível evitar. Sou empurrada, de dentro pra fora, a me expressar. Ainda que só saia merda.

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Uma muda

Engraçado como algumas coisas são tão difíceis de dizer, mesmo quando nem parecem ser um imbróglio tão grande assim. Elas simplesmente não saem, ou não saem simplesmente.

Saem como um imbróglio ainda maior, revelando talvez como de fato nos atingem, para além da formulação racional que conseguimos fazer delas.

É assim que me sinto quando tento dizer do que sinto, especialmente por certas pessoas tão especiais.

Parece razoável e viável ser apenas sincera, como se isso pudesse evitar a confusão dos meus próprios sentimentos. Penso e ensaio mentalmente algumas vezes:

“Em algum momento meu sentimento por você desatinou, nesse mesmo instante as coisas mudaram de rumo, desfazendo-o pouco a pouco”

Tento outra vez:

“Num determinado momento meu sentimento desandou, em meio a explosão corremos para lados contrários, sem que houvesse tempo de dizer-lhe nada”

Refaço a “cena verbal” mais uma dúzia de vezes, até que as palavras se fundam parecendo ser uma coisa só. Penso então que estou preparada e quando chega, fico sem ter o que dizer.

A imagem dos pensamentos ecoando te cobrem como um manto, o coração remói as palavras e os silêncios, o desejo defronta seu algoz e tudo se estilhaça sem causar ruído. Depois de ir embora, tateio o estrondo deixado como vestígio.

Penso, repenso e me convenço de estar vencida.

Em um canto da cama nossos suores se decompunham, o tempo passou, ninguém notou, mas da composteira nasceu o amor – que sem ser colhido, apodreceu no pé.

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(2x seis, terça e três)

Um dia começa sem que haja força motora nenhuma que o mova, simplesmente o inevitável de cair no sono nos leva a um novo amanhecer, com limitada possibilidade de tardá-lo. Como a força peristáltica, que tenho gostado de analogizar. E com pouca intenção, ele titubeia entre continuidade e repetição, sem muito revelar. Mas de um momento pro outro, seja pela força da insistência ou pelo humor expontaneísta, estamos diante das horas por serem vividas. Se de alguma forma estão amarradas ao cotidiano, estão também intímas de si mesmas, abertas à resignificação depois de rearranjadas numa nova composição. É assim que quase com surpresa, olho pro meu dia já consumido e não temo pelos que virão, justamente por quase tudo nele ser leveza e também reinvenção. Os minutos frágeis e passageiros, se amotinam e exigem da gente que o façam valer, que os vejamos num conjunto mais amplo de horas e manhãs, tardes, noites e madrugadas: que se enrolam numa trama libertina de se amarem e rejeitarem ao bom grado de suas intenções. Desperto e tenho 2 horas para mim que não sei o que fazer delas, de repente vem a obrigação e oferta momentos de caos, superação, incerteza e realizações. Vem ainda a necessidade, a pausa, o alimento, a tranquilidade. Depois vem ainda o esforço, o treino, a disciplina, a determinação. A ligação, a conversa e a saudade. Vem o diálogo desinteressado mas amistoso, gentil e agradável. Vem a amizade com o compromisso, a companhia, a troca. Vem o convite companheiro e confortável. Vem ainda a dádiva, o presente e doação. Chego em casa, que é uma mistura de tudo isso com ainda mais sinceridade e reflexão. Tudo isso criancice e aprendizagem, um jeito de não sermos só nós mesmos, em meio a multidão – de gentes, tempos e lugares.

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Engasgo

Com esta palavra inevitavelmente deve iniciar esse “desengasgo”. Repetição até certo limite, já não posso me contentar. O “problema” jamais fora os outros/as e sim, sempre, aparentemente eu mesma. Não sei escapar dessa espécie de associação de movimentos e sentimentos que me levam sempre, sempre, ao mesmo lugar. É muito.

Mesmo quando corro, me distancio de onde tudo parecia vir, tudo se reconstrói sempre da mesma forma na minha presença. E eu me sufoco, quase morro de tentar sem que o queria chegue a acontecer.

Apesar de todo o esforço, parece nunca depender de mim ou tudo de mim se transforma em efeito colateral, tudo que posso alcança o contrário. Desejo com toda força esboçar-me no oposto do que consigo, na direção do desejo. Esse que sempre me machuca, pela intensidade com que me invade.

E tudo se repete enquanto êxtase estagnado, êxtase que se perde no revestrés da noite e se gasta, gasta no nada, no vai e vem que nunca sabe onde ir ou se sabe, não sabe ir. Inexplorado o prazer do encontrado, inexplorado o sentido de realizar-se e, sabe se lá porquê esta sempre no outro o que perdi em mim.

Como pode conviver essa espera de ser eu mesma se a falta de empatia tende sempre a derrubar-me. É como se já não pudesse estar de pé por mim mesma e isso vai contra a quase tudo o que propus ou imaginava. Escrevo desesperadamente para disfarçar o constrangimento do desprezo, ou do desejo em outra direção contrária a qual me encontro. E me pergunto, me estagno, me estarreço de tanto me perguntar.

Assim então que o desejo é algo tão instável para mim como para todos, e o que parece não engana. O que parece costuma ser o que é. E o que se pretende esconder tende sempre a ressurgir com mais força do que quando se evitou. Evidenciar, encarar, demonstrar, materializar.

Daí que outra vez sou eu a pensar sobre mim mesma, e daí talvez venha a razão do desentendimento quase completo de tudo o que me cerca. Se for igual para todos, pior ainda: resta pouco ou quase nada além da dor. Pouco, pouco, que não seja o estranhamento do alheio. Mas além do alheio, desejaria qualquer coisa que fosse de alguma maneira meu, não meu no sentido usual do que se pode guardar, mas no sentido anárquico de tudo o que se pode tocar e desfrutar mutuamente, intensamente, plenamente.

E nisso, guardo em mim alguma insatisfação, nisso guardo um par de limitação, uma sequência de ilusões, ilustradas, imaginadas, inalcançadas, cansadas, exaustas, embriagadas, injustiçadas, descansadas, e… enfim, esquecidas.

É assim talvez que de tanto reforçar o almejado, ele se desfaz em milhões de momentos desleixados, acontecendo por fora da consciência que habito, tornando estranho aquilo que se dá por fora desse terreno. Onde não estou não posso dizer o que ocorre, e justamente isso me assusta de maneira tão estarrecedora a ponto de não me identificar em quase nada.

Repito a dose e me deixo levar por essa inconsequência. Inconsequência de existir tateando momentos, respirando sentimentos, inventando o que não foi e desfazendo o que se é.

Assim sigo, sem caminho nem ninho. Assim sigo, fingindo. Fingindo que um dia será atingido por qualquer coisa que emana daqui, dessa pulsão inquietante e compulsória, dessa emoção que me leva, me leva, por onde não sei quem somos. Assim sigo, sendo levada pelo que não fui, que um dia seremos, quem sabe, amaremos.

É assim que de sobra em sobra sigo sendo só isso mesmo. Algo que inquieta e ressurge, como aquilo que não brotou.

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você e/ou ele

Não sei se estou triste ou feliz,
as coisas estão mudando.
Tão rápido, tão definitivo,
ainda não sei que sustentação terei p/ tamanha definição…

O que virá? É tanta vontade de que se concretize,
mas depende de tamanhas dificuldades,
que nem imaginava que existiria.

São desafios que valem a pena,
são desafios que me levam aonde queria,
e que nem existiam…

Estou aqui, só,
e você… nem quero pensar,
pouco posso imaginar,
apesar da angústia, melhor assim
que não possa especular sobre isso
que não possa perseguir-lhe em vão
que não possa descobrir nada de superficial à distância.

Quero chorar e não consigo,
não tenho idéia qual o tamanho da ilusão, ou não
vontade de saber que escapou,
medo que escape e não veja,
desejo de tê-lo livre.

Livre para ser quem é
e talvez nunca o tenha sido de fato
mais ou menos livre para exercer-nos à dois.

Nenhum olhar, nenhuma dissimulação,
nenhuma demonstração nem representação de nada,
apenas o sentimento bruto do encontro,
apenas a sinceridade que nunca senti, nem vivi
nem mesmo expressar em palavras consigo
é puro bruto e brusco sentir, admiração
respeito, consideração, amor
despudor de dizer que tudo o que havia antes
não tinha nada que ver.

Primeira vista, intimista, sumário,
como quem sai do armário e se descobre
na falta de sentido quase total de tudo o que foi
e que quer recomeçar sem medo do que irá perder
viver a vida, simples e sincera, sem cela

Não tem aviso nem proteção,
só o coração para exitar ou se entregar
e que um não esmoeça o outro no aperto do abraço
mas fortaleça a determinação do coração
pela força dos braços.

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vileza

Há sempre muito mais coisas do que se pode condensar em um instante. Acho que deixei rolar e sem a vontade e determinação de antes as coisas tomaram rumos e nuances inesperadas. A verdade é esta, que, no momento vivo algo que não desejei nem planejei, deixei que a vida sem interferências me mostrasse como era ela, não gostei. Gostei de alguns garotos, de alguns momentos com as amigas e os amigos, me inspirei diante algumas causas, me emocionei com algumas lembranças, parece que, nada disso foi suficiente pra manter um sentimento mais vivo diante do que insurgia a cada instante à minha frente. Deixei o tempo passar, sem antecipá-lo, as responsabilidades chegar, sem sentir ansiedade, deixei que tudo fosse como deveria ser e só pensar naquilo que bate a porta, mas nem isso foi capaz de aliviar a pressão que o submundo imerso em mim me causava. Senti desprezo e essa foi uma experiência  entristecedora, em ambos os sentidos senti ela circular e ela sempre crescia num círculo que eu não soube cessar; senti também medo, arrepio, mas foi sempre um sentimento tão meu. Senti alegria de que tudo fluía independente de mim, mas mim independente do outro/a não foi muito longe e quando foi, foi sozinha. Me entusiasmei com as cartas, com os filmes e até, com a cerveja na espera, mas o tempo sobrou além do pote que o comportava e os tons de cinza pintaram, todos os momentos como filme ntsc na TV pal. Quis ser hipócrita como somos todos/as enquanto sonhamos ou quando lidamos com a realidade e pulei da ponte que os separava. Fui como todas as pessoas que suportaram caladas o grito mudo, apenas não considerei que o fato dele “não existir” o amenizasse. Pedi, ignorei, super-interpretei ou passou desapercebido, o fato é que, tantos desencontros me desencorajaram e preferi não disfarçar, mas tatuar nos olhos as frases panfletárias da minha decepção. Me contive quando os não-meus estavam presentes e me contive também quando só os meus presenciavam e isso foi, extremamente diferente em cada ocasião, não pelo que eu pretendia, mas pelo que cada um/a queria. Sofri todas as infâmias e isso em alguma circunstância chegou a decepar a carne, mas o fato é que me reconstruí a partir disso um pouco mais mutante do que eu era. Me pediram sincera, me encontraram descrédula. Me queriam falante, me encontraram distante. Me queriam e eu me distraía, me atentei e ninguém encontrei. Eu quis e errei, quis sempre o que não era próprio daquele momento, quis, esperei e a vontade se voltou contra mim, o que eu queria não veio, eu não alcancei o remetente ao percorrer o caminho inverso do querer. Tudo se perdeu entre ruas sem saída e estradas pro vazio, eu acreditava que ali poderia me acomodar, mas de tão inóspito voltei pra esquina, onde prostituo e propagandeio meus mitos. Escuto auto-falantes, buzinas, apitos, vejo os outdoors, me deixo seduzir por alguma mentira onde só depende de mim, fazê-la felicidade. E eu aguento, sustento essas pequenas ilusões, meus vilões e minhas vilezas, deixo que se instalem livres das despesas, e, o que indigna ainda talvez, é que elas não apagam as luzes antes de me deixarem só.

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penumbra

Gostaria de saber descrever as aflições que me tomam durante a penumbra entre o despertar e o sono. É algo para o qual me falta não somente as palavras adequadas, mas o próprio entendimento. A fricção entre o consciente e o subconsciente parece faiscar sensações difíceis de trazer à tona, e é aí que pareço perambular e quase me perder entre uma autoconsciência ideal de si mesma e um não-eu absoluto.

O susto é a perspectiva constante que permeia estes instantes de delírios, quase lúcidos. Quando termino de atravessar essa fronteira tênue, ressurjo dentro do meu próprio corpo, um pouco machucada e bastante assustada. Não sei se pela impossibilidade da memória ou se por uma espécie de revelação que me ocorra nestes percursos (uma revelação que estaria constantemente me alertando dos equívocos e insuficiências?).

Essa espécie de “anúncio” parece desencadear – na mente já desperta – o desespero. Como se, de novo enquadrada na matéria, tivesse o trabalhado redobrado de transformar quem eu sou, vindo a ser eu mesma (enquanto devir e jamais como fato).

Isso que se é conscientemente, diferentemente daquilo que se experimenta enquanto pratica do existir, revela a busca constante da ação por identidade. Como se a primeira fosse constantemente pretexto para ser (ou sentir-se) alguma coisa. É mais ou menos como não dizer: “Eu escrevo”, mas “sou escritora”.

Transubstanciar-se na própria ação e não mais em sujeito dela, deve guardar consigo um grande enigma.

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