Com esta palavra inevitavelmente deve iniciar esse “desengasgo”. Repetição até certo limite, já não posso me contentar. O “problema” jamais fora os outros/as e sim, sempre, aparentemente eu mesma. Não sei escapar dessa espécie de associação de movimentos e sentimentos que me levam sempre, sempre, ao mesmo lugar. É muito.
Mesmo quando corro, me distancio de onde tudo parecia vir, tudo se reconstrói sempre da mesma forma na minha presença. E eu me sufoco, quase morro de tentar sem que o queria chegue a acontecer.
Apesar de todo o esforço, parece nunca depender de mim ou tudo de mim se transforma em efeito colateral, tudo que posso alcança o contrário. Desejo com toda força esboçar-me no oposto do que consigo, na direção do desejo. Esse que sempre me machuca, pela intensidade com que me invade.
E tudo se repete enquanto êxtase estagnado, êxtase que se perde no revestrés da noite e se gasta, gasta no nada, no vai e vem que nunca sabe onde ir ou se sabe, não sabe ir. Inexplorado o prazer do encontrado, inexplorado o sentido de realizar-se e, sabe se lá porquê esta sempre no outro o que perdi em mim.
Como pode conviver essa espera de ser eu mesma se a falta de empatia tende sempre a derrubar-me. É como se já não pudesse estar de pé por mim mesma e isso vai contra a quase tudo o que propus ou imaginava. Escrevo desesperadamente para disfarçar o constrangimento do desprezo, ou do desejo em outra direção contrária a qual me encontro. E me pergunto, me estagno, me estarreço de tanto me perguntar.
Assim então que o desejo é algo tão instável para mim como para todos, e o que parece não engana. O que parece costuma ser o que é. E o que se pretende esconder tende sempre a ressurgir com mais força do que quando se evitou. Evidenciar, encarar, demonstrar, materializar.
Daí que outra vez sou eu a pensar sobre mim mesma, e daí talvez venha a razão do desentendimento quase completo de tudo o que me cerca. Se for igual para todos, pior ainda: resta pouco ou quase nada além da dor. Pouco, pouco, que não seja o estranhamento do alheio. Mas além do alheio, desejaria qualquer coisa que fosse de alguma maneira meu, não meu no sentido usual do que se pode guardar, mas no sentido anárquico de tudo o que se pode tocar e desfrutar mutuamente, intensamente, plenamente.
E nisso, guardo em mim alguma insatisfação, nisso guardo um par de limitação, uma sequência de ilusões, ilustradas, imaginadas, inalcançadas, cansadas, exaustas, embriagadas, injustiçadas, descansadas, e… enfim, esquecidas.
É assim talvez que de tanto reforçar o almejado, ele se desfaz em milhões de momentos desleixados, acontecendo por fora da consciência que habito, tornando estranho aquilo que se dá por fora desse terreno. Onde não estou não posso dizer o que ocorre, e justamente isso me assusta de maneira tão estarrecedora a ponto de não me identificar em quase nada.
Repito a dose e me deixo levar por essa inconsequência. Inconsequência de existir tateando momentos, respirando sentimentos, inventando o que não foi e desfazendo o que se é.
Assim sigo, sem caminho nem ninho. Assim sigo, fingindo. Fingindo que um dia será atingido por qualquer coisa que emana daqui, dessa pulsão inquietante e compulsória, dessa emoção que me leva, me leva, por onde não sei quem somos. Assim sigo, sendo levada pelo que não fui, que um dia seremos, quem sabe, amaremos.
É assim que de sobra em sobra sigo sendo só isso mesmo. Algo que inquieta e ressurge, como aquilo que não brotou.