hospital de urgências

Vontade de ter o que dizer só pra poder sobreviver, um impulso qualquer de idéia e vontade que mantenha essa centelha acesa, de alguma maneira. Não quero esvanecer e o vazio da mente e do coração beira o abismo em que isso parece próximo de acontecer. É difícil cruzar os dias e noites em que não há luz, difícil cruzar a vida sem tropeçar no nada. Difícil sonhar quando o corpo esta preso, neste ponto nos encontramos. Os olhos que não percorrem caminhos não podem se reinventar de um hora pra outra, a mente não trabalha sem o alimento das coisas e pessoas, a mente não se auto-reproduz do nada tampouco produz a nós mesmos/as se não à oxigenamos. Um percurso quase viciado como as horas entre casa e estudo, quando tento escapulir sou lançada ainda com mais força sobre o incômodo de estar viva, olho a minha volta e não é só comigo, olho a minha volta e vejo olhos famintos, daria os meus pra saciar os de alguém, mas estão podres como uva passada. Quero uma fonte que combata meu desespero, mas não encontro, não encontro. A prisão já se estabeleceu e já não é tão oculto assim, é possível ver a vontade gritar em desespero, sem poder realizar-se. É constrangedor constatar o algoz dentro de nós, é constrangedor conviver com o bandido e o polícia dentro de si, um que quer, o outro empata. Os dias passam e as fronteiras e muros parecem determinados a não permitir que nada de novo nos surpreenda, quando estamos na rua, as pessoas parecem embaladas em plástico. Apenas a ansiedade de manter-se inquieta parece ainda chamar a atenção de alguém, mas o ar se rarefaz de pronto e as partículas se distanciam sem que possam se tocar. No meio desse devaneio e desse desconforto ponderações estúpidas ainda se fazem presente, a possibilidade de pirar sem se acabar parece cada vez mais distante. Quero a loucura como quero a vida, mas chega um momento em que até o devaneio parece perder a inspiração. A cabeça pesa uma tonelada e de tanto lixo já não dá conta de conter mais nada, no coração, uma barricada; o que há dentro nele não é a riqueza dos países coisas, e talvez por isso ninguém esteja disposto a atravessar este Saara. Chegará um momento que de tão repetidas as palavras, se esgotarão as combinações possíveis e não será impossível inventar mais nada, até elas talvez se cansem e me deixem aqui, com o tempo transbordando pelo esgoto, desaguando este sufoco, sem chegar, sem se dar. Tudo o que me resta são os cacos ainda juntos neste saco, mas nem a pele já suporta o peso desse desespero, essa calma que num chega, essa paciência que observa o tempo, sem ao menos cantá-lo. O tempo exibe sua soberba, seus cachos, seu charme e não me olha, não me vê aqui desejosa do seu abraço; nem sequer me percebe, não pergunta meu nome, não me distraí com sua leveza nem me revela sua beleza. Sou mais forte que ele e por isso me irrito com tamanho desprezo, sei que se ele me toca não resiste ao impulso que há em mim, se renderia em questões de segundo a sedução da determinação. Flores, ruas, espinhos, sol, folhas, troncos, sons, cores, muros, papel, tecido, água… Me notem aqui, me digam onde ir, não vou subsistir sem me iludir, não vou acordar se não sonhar, não vou lutar sem sangrar nem amar sem cantar. Pedra no caminho meu e de milhares de meninos/as, deixe um certo desleixo passar por você, machuque meu dedo do pé pra assegurar-me de que sigo viva, me desvie o caminho, me leve ao ninho. Sem verdade, sem vontade nem passarinho, me dê armamento pra seguir sozinha, em meio ao concreto, ao incerto, ao medo e ao risco, me tire daqui, do meu lugar comum, grite pelo meu número de chamada, na sala de espera do hospital de urgências.

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