Engraçado como algumas coisas são tão difíceis de dizer, mesmo quando nem parecem ser um imbróglio tão grande assim. Elas simplesmente não saem, ou não saem simplesmente.
Saem como um imbróglio ainda maior, revelando talvez como de fato nos atingem, para além da formulação racional que conseguimos fazer delas.
É assim que me sinto quando tento dizer do que sinto, especialmente por certas pessoas tão especiais.
Parece razoável e viável ser apenas sincera, como se isso pudesse evitar a confusão dos meus próprios sentimentos. Penso e ensaio mentalmente algumas vezes:
“Em algum momento meu sentimento por você desatinou, nesse mesmo instante as coisas mudaram de rumo, desfazendo-o pouco a pouco”
Tento outra vez:
“Num determinado momento meu sentimento desandou, em meio a explosão corremos para lados contrários, sem que houvesse tempo de dizer-lhe nada”
Refaço a “cena verbal” mais uma dúzia de vezes, até que as palavras se fundam parecendo ser uma coisa só. Penso então que estou preparada e quando chega, fico sem ter o que dizer.
A imagem dos pensamentos ecoando te cobrem como um manto, o coração remói as palavras e os silêncios, o desejo defronta seu algoz e tudo se estilhaça sem causar ruído. Depois de ir embora, tateio o estrondo deixado como vestígio.
Penso, repenso e me convenço de estar vencida.
Em um canto da cama nossos suores se decompunham, o tempo passou, ninguém notou, mas da composteira nasceu o amor – que sem ser colhido, apodreceu no pé.