Há sempre muito mais coisas do que se pode condensar em um instante. Acho que deixei rolar e sem a vontade e determinação de antes as coisas tomaram rumos e nuances inesperadas. A verdade é esta, que, no momento vivo algo que não desejei nem planejei, deixei que a vida sem interferências me mostrasse como era ela, não gostei. Gostei de alguns garotos, de alguns momentos com as amigas e os amigos, me inspirei diante algumas causas, me emocionei com algumas lembranças, parece que, nada disso foi suficiente pra manter um sentimento mais vivo diante do que insurgia a cada instante à minha frente. Deixei o tempo passar, sem antecipá-lo, as responsabilidades chegar, sem sentir ansiedade, deixei que tudo fosse como deveria ser e só pensar naquilo que bate a porta, mas nem isso foi capaz de aliviar a pressão que o submundo imerso em mim me causava. Senti desprezo e essa foi uma experiência entristecedora, em ambos os sentidos senti ela circular e ela sempre crescia num círculo que eu não soube cessar; senti também medo, arrepio, mas foi sempre um sentimento tão meu. Senti alegria de que tudo fluía independente de mim, mas mim independente do outro/a não foi muito longe e quando foi, foi sozinha. Me entusiasmei com as cartas, com os filmes e até, com a cerveja na espera, mas o tempo sobrou além do pote que o comportava e os tons de cinza pintaram, todos os momentos como filme ntsc na TV pal. Quis ser hipócrita como somos todos/as enquanto sonhamos ou quando lidamos com a realidade e pulei da ponte que os separava. Fui como todas as pessoas que suportaram caladas o grito mudo, apenas não considerei que o fato dele “não existir” o amenizasse. Pedi, ignorei, super-interpretei ou passou desapercebido, o fato é que, tantos desencontros me desencorajaram e preferi não disfarçar, mas tatuar nos olhos as frases panfletárias da minha decepção. Me contive quando os não-meus estavam presentes e me contive também quando só os meus presenciavam e isso foi, extremamente diferente em cada ocasião, não pelo que eu pretendia, mas pelo que cada um/a queria. Sofri todas as infâmias e isso em alguma circunstância chegou a decepar a carne, mas o fato é que me reconstruí a partir disso um pouco mais mutante do que eu era. Me pediram sincera, me encontraram descrédula. Me queriam falante, me encontraram distante. Me queriam e eu me distraía, me atentei e ninguém encontrei. Eu quis e errei, quis sempre o que não era próprio daquele momento, quis, esperei e a vontade se voltou contra mim, o que eu queria não veio, eu não alcancei o remetente ao percorrer o caminho inverso do querer. Tudo se perdeu entre ruas sem saída e estradas pro vazio, eu acreditava que ali poderia me acomodar, mas de tão inóspito voltei pra esquina, onde prostituo e propagandeio meus mitos. Escuto auto-falantes, buzinas, apitos, vejo os outdoors, me deixo seduzir por alguma mentira onde só depende de mim, fazê-la felicidade. E eu aguento, sustento essas pequenas ilusões, meus vilões e minhas vilezas, deixo que se instalem livres das despesas, e, o que indigna ainda talvez, é que elas não apagam as luzes antes de me deixarem só.
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