despedida(s)

Além do vazio quase absoluto dos que se mantêm vivos diante da morte – além da reflexão sobre “o que é a vida”: afinal, lutaremos tanto mesmo tendo como único inevitável a morte – há algo de bonito em ver a comunhão de seus bem quistos diante um funeral: A constatação de que nada valem os sentimentos pequenos, aqueles que por vezes se espalham como poeira em corações quase abandonados.

– Acabo de pensar que a solução da equação tá aqui: Temos a morte por inevitável, mas apenas a nossa. A dos outros/as são incerta durante nossa existência. Taí a chave do nosso egoísmo: nos conformamos com essa condição, desde que não a presenciamos… (estaria aí nosso instinto de morte?)

Presenciei nesta tarde a sutileza em meus familiares, a fragilidade, a saudade de tudo o que foi e que continuará a ser, sempre incompleto. A história de vida preenche-se de sentido ao encontrar-se no presente: o que foi embeleza-se no encontro daqueles que guardam consigo o par das peças, como num jogo de memória.

Ao cair da tarde, as flores, as nuvens, a cidade reluzente ao redor e o caminho sombrio até a cova, onde perde-se a matéria dos que queremos bem e que mesmo depois de todo o preparo anterior, desponta enquanto ápice dramático e dolorido: não só já não o escutaremos, mas nosso olhar já não poderá descansar sobre ele.

De repente sou acometida pelo sentimento perplexo da soma dos erros: não só daqueles irreparáveis, mas também daqueles para os quais ainda dispomos de tempo para remediá-los.

– Enquanto escrevo me dou conta (uma vez mais): O momento parecia influenciar de forma difusa meu sentir, por estar só, ou manter certa distância, que me permite ainda que o não convívio demasiado ou desnecessário crie fronteiras conflituosas ou barreiras (aparentemente) intransponíveis.

Percebo, quase num lampejo paradoxal, a beleza do efêmero. Não somos absolutos e jamais o seremos. Os rituais de passagem estão aí para lembrarmos disso: São como o repasse do bastão, que de mão-em-mão, levam nossa geração. Renovam-se assim como as plantas, a cada reiniciar de suas estações.

A não compreensão ou experimentação prolongada desta aprendizagem, talvez ajude a perceber os repetidos erros que cometemos, enquanto humanidade: sua fundamentação no passado, por um lado nos dá a dimensão do valor, respeito e dignidade dos antepassados, bem como pode nos levar a justificar e perpetuar o injustificável. No entanto, se nos prendemos à ele, deixamos de lembrar que aqui estamos também pelos que virão e não deve haver medo nem certezas e verdades, apenas o encanto da continuidade: que só é possível a partir do que perece.

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