Poetizar é tudo o que me resta.
Quando não há ninguém que me arranque um sorriso ou um suspiro
quando não há obrigação que me roube o tempo
ou preocupação a me ocupar a atenção.
Sim, poetizar é o que me resta
quando não tenho inspiração pra fazer tocar a música certa
ou energia o suficiente para realizar o que interessa
…quando não é minha vez de responder aquela carta, mensagem, telefonema,
enquanto espero.
Poetizar é o que me resta
quando não sei onde ir passear com minha liberdade
quando posso ser qualquer coisa e ainda não sei o que quero
Poetizar é o que resta
enquanto espero o sono, o efeito, o afeto e o sonho.
É o que resta naquelas noites e dias
de horas vadias
e de sensação irrealizada.
Poetizar me resta
sempre que não sou só eu a me incomodar com as arestas
em meio ao tempo, o desejo, a necessidade, a história…
Quase sempre sobra um pouco de poesia
no jarro vazio
na líquido que escorre
nos minutos desorientados.
Quando não há palavra
entre a intenção e gesto
que afague a dor de existir
em meio a dificuldade.
É bem pouco: uns rabiscos no papel,
o que fica quando me sinto impotente
diante o latente que nos agonia.
É bem aí que me pergunto
o que será que resta
naquilo que sobra na vida de cada um/a?
Quantas poesias inventaria
se soubesse o que faria
você nessa situação.